Capítulo 6: Já viu o cadáver?
O coração de Ye Chen estava tomado pela dúvida. Ergueu os olhos e, não muito longe, viu Ye Mu cercado pelos membros da família Ye, que o adulavam como estrelas orbitando a lua, ostentando no rosto um orgulho indisfarçável.
Ning Xia, sem disfarçar o elogio, sorriu radiante: “Mu’er é realmente extraordinário; com uns poucos traços casuais, suas pinturas foram leiloadas por milhares de taéis de prata.”
“Olhem só para aquele garoto ingrato do Ye Chen. Quando era pequeno, o mestre ainda dizia que ele tinha talento, mas até hoje não vimos dele uma obra digna de exibição.
“Comparado a Mu’er, é como o céu e a terra. Ye Chen não chega nem ao dedo mindinho do irmão.”
Ao lado, Ye Lu apressou-se em concordar: “Exatamente! Esse rapaz está cada vez mais insuportável, só sabe dar trabalho para a família.”
“Ouvi dizer que foi para Nanyang. Pai, mãe, eu sempre disse para não mimarem tanto esse menino. Arranja todas essas confusões e, sem dizer uma palavra, simplesmente parte. É mesmo voluntarioso e irresponsável.”
“Pai, mãe, não deixem que isso lhes faça mal à saúde. Talvez o irmão só queira sair para espairecer.”
“Mas, quando ele voltar, precisa ajoelhar-se e pedir perdão aos senhores! Na minha opinião, só com uma boa lição ele vai aprender alguma coisa.”
Diante do semblante hipócrita de Ye Mu, uma chama de ira irrompeu no peito de Ye Chen, que quase não se conteve para não avançar e arrancar-lhe, sem piedade, a máscara de falsa bondade.
Contudo, todos pareciam encantados por aquela encenação, sem a menor suspeita, aceitando e acatando cada uma de suas palavras.
Ye Chen já não podia suportar o escárnio e o desprezo da família.
Por mais que pensasse, não conseguia compreender: sendo ambos filhos do mesmo ventre, como poderia sua mãe ser tão impiedosa com ele?
Ye Chen era verdadeiramente apaixonado pela pintura. No aniversário de Ye Mu, porém, por razões desconhecidas, sua mãe irrompeu furiosa em seu ateliê e, em um acesso de cólera, rasgou suas obras em pedaços.
Naquele momento, Ning Xia não hesitou em esbravejar, acusando Ye Chen de insensibilidade, de só pensar em pintar num dia tão importante para o irmão, taxando-o de ingrato, frio e desalmado.
Foi desde então que sua mãe passou a nutrir descontentamento por ele, considerando-o muito inferior a Ye Mu em termos de maturidade e sensatez.
Porém, nesta última ocorrência, era evidente que Ye Mu e Liu Ruyan haviam causado toda a confusão; mesmo assim, todos ignoraram a verdade e lançaram sobre Ye Chen toda a culpa.
Após a morte de Ye Chen, ninguém demonstrou pressa em procurá-lo; ao contrário, começaram a maquinar maneiras de lidar com ele.
Ye Chen, instintivamente, tocou o rosto. Não havia lágrimas, mas em seu íntimo sentia-se como se estivesse sendo dilacerado.
Do céu voltaram a cair grandes flocos de neve, brancos como penas de ganso, cobrindo tudo, tal qual na cena de sua morte.
Quando, afinal, perceberiam que ele já não pertencia mais a este mundo?
Não tardou para que os acontecimentos do salão de pintura corressem por toda a Cidade Jinxiu, e os nomes de Ye Chen e Ye Mu tornaram-se tema constante das conversas nos salões de chá e nas mesas de jantar.
A opinião pública voltou-se unicamente contra Ye Chen, cuja reputação foi destruída impiedosamente.
Ye Chen postava-se atrás de Liu Ruyan, observando-a folhear, inquieta, as cartas em suas mãos; quanto mais lia, mais seu cenho se fechava.
Ye Mu, segurando suavemente o braço de Liu Ruyan, disse em voz baixa: “Cunhada, eu não imaginei que as coisas tomariam tal proporção. Talvez devêssemos procurar alguém para apaziguar a situação?”
“Por que apaziguar?” — interveio Ning Xia. “O povo está com a razão; foi Ye Chen quem tomou para si um mérito alheio. Agora, desmascarado, é apenas o merecido. Se soubesse que isso aconteceria, não teria agido assim.”
“Todos elogiam a bondade de Mu’er. Essa onda de comentários só serve para enaltecer sua reputação. O que há de errado nisso?”
Enquanto falava, segurou a mão de Ye Mu, o orgulho estampado no rosto: “Nosso Mu’er, ah… certamente será um pintor de renome em todo o império!”
Ye Lu assentiu: “Mãe tem toda razão. O quarto irmão colhe o que plantou; quanto mais desgraçado estiver, mais se destaca a excelência de Mu’er.”
“Mais pessoas conhecerão Mu’er, e seu nome se espalhará por toda parte.”
O corpo de Ye Chen mal esfriara e, ainda assim, a família tramava arrancar-lhe até o último proveito.
Antes, quando Ye Chen se dedicava à pintura, a mãe o repreendia por não cuidar dos negócios da família, acusando-o de egoísmo e de desperdiçar o tempo com inutilidades.
Agora, porém, enchia-se de orgulho ao celebrar os méritos de Ye Mu, não hesitando em pisotear a dor do filho morto para elevar o outro.
No fundo, a mãe nunca odiou a pintura; amava apenas Ye Mu, e tudo o que este fizesse era, a seus olhos, irrepreensível.
Ye Chen, apesar de tantas dores, ainda se enchia de mágoa pela traição dos próprios familiares.
Ye Mu voltou-se para Liu Ruyan e, simulando preocupação, perguntou: “Cunhada, o que pensa? Não deveríamos tentar pôr fim a esses comentários? Afinal, meu irmão é teu esposo; se ouvir tais rumores em Nanyang, certamente se sentirá ferido.”
Liu Ruyan, já de espírito inquieto, ao recordar-se de Ye Chen partindo sem despedidas, respondeu friamente: “Ferido? Para mim, ele colhe o que plantou. Que se fale à vontade! Se sentir vergonha, que volte logo!”
O antigo afeto de infância terminara em amarga solidão para Ye Chen, entregue à própria ilusão.
Tanto a família Ye quanto a Liu tinham poder para sufocar a controvérsia, mas preferiam sacrificar a honra de Ye Chen para proteger Ye Mu.
Isto, então, é o que chamam de família?
Ye Chen, tomado de amargura, encolheu-se num canto, ouvindo as palavras frias, observando a harmonia fingida dos seus, sentindo-se como intruso naquela casa, talvez, ele mesmo, o verdadeiro estranho, o que devia desaparecer.
Não se sabe quanto tempo passou.
Quando Ye Chen voltou a erguer a cabeça, o cenário à sua frente havia se transformado.
Os membros da família Ye e Liu Ruyan haviam desaparecido. Ele se via agora num local semelhante a um porão.
O ambiente era sombrio e úmido, impregnado de um odor de podridão.
Onde estaria?
Ye Chen tinha certeza de jamais ter estado ali.
Ao examinar ao redor, percebeu que se encontrava num longo corredor; as paredes de pedra, carcomidas pelo tempo, estavam sulcadas por fendas irregulares.
A tênue luz de uma vela tremulava, projetando reflexos sobre seu corpo, mas nenhuma sombra se desenhava na parede.
O silêncio era absoluto, inquietante; não havia vivalma.
No final do corredor, avistou o que parecia uma câmara de pedra, e, sem perceber, apressou o passo em sua direção.
À distância, divisou uma cama; sobre ela, parecia repousar alguém.
Quem estaria deitado em tal lugar?
À medida que se aproximava, seu coração acelerava, descompassado.
Quando seus olhos, por fim, distinguiram com clareza, viu, estarrecido, que quem jazia ali era ele próprio.
Ye Chen postou-se ao lado do leito, fitando o corpo inerte à sua frente.
O cadáver não apresentava sinais de decomposição, nem manchas; não fosse pela ausência de movimentos no peito e pela falta de respiração, qualquer um diria que aquele corpo estava apenas adormecido.