Capítulo 7: Erros Cometidos por Instinto
Ao alvorecer, num recanto discreto do Palácio Xing Le, Ying Zheng já havia se levantado cedo. Diante dele, Qing Xi exercitava sua arte da espada.
A assassina que outrora pertencera à rede Luo Wang manejava a lâmina com tal destreza que não se percebia qualquer traço de hesitação. A espada, em suas mãos, dançava como um peixe nas águas correntes, movendo-se com fluidez e graça, como nuvens deslizando pelo céu. Não parecia, naquele instante, uma exímia espadachim, mas antes uma mestra do pincel, versada na pintura de paisagens com tinta aguada.
Ying Zheng, porém, sabia que naquela teia de espada, desenhada como uma obra-prima em sumiê, qualquer coisa que ousasse atravessá-la enfrentaria apenas um destino: a morte.
O imperador observava, silencioso, a prática de Qing Xi, decompondo em sua mente cada movimento em gestos fundamentais, recombinando-os, transformando-os em lembranças profundas e indeléveis.
Sob a luz suave da manhã, Qing Xi vestia trajes curtos, ornada apenas por um cinto que, ao girar seu corpo, flutuava no ar em belos arcos. Bela mulher a brandir a espada, quadro de rara beleza.
No entanto, Ying Zheng percebia uma dissonância sutil nessa cena: a mão esquerda de Qing Xi. Parecia-lhe um apêndice supérfluo, estranho, deslocado.
"Ela deveria estar usando uma espada em cada mão," pensou subitamente Ying Zheng.
A estranheza da mão esquerda não era fruto de acaso, mas da ausência de uma espada. O olhar do imperador recaía sobre aquela mão; embora Qing Xi tivesse alcançado o domínio pleno sobre sua técnica, Ying Zheng notava, de tempos em tempos, um leve tremor – quase imperceptível, mas não escapava a seus olhos.
"O tremor é instintivo, e instinto não se forma de um dia para o outro. As memórias da espada dupla estão gravadas em seu corpo. Sinal de que, desde jovem, praticou e dominou a espada em ambas as mãos," raciocinou Ying Zheng.
"Duan Shui, uma das Oito Espadas do Rei Yue, corta a água que não volta a se unir, mas não é uma técnica de espada dupla," lembrou-se da descrição de Qing Xi, e uma dúvida lhe assaltou o coração.
Seria ela realmente a antiga Duan Shui?
“Majestade, esta é a arte da espada que aprendi,” disse Qing Xi, recolhendo a lâmina e soltando um longo suspiro. Não estava cansada, mas sim concentrada.
“Não ocultou nada?” indagou Ying Zheng.
“Diante de Vossa Majestade, jamais ousaria ocultar,” respondeu ela, grave.
“Uma pena,” disse o imperador, tomando a espada das mãos de Qing Xi e admirando as misteriosas gravuras em sua lâmina.
“O que lamenta, Majestade?” perguntou ela, confusa.
“Lamento que só pude ver um terço desta técnica,” replicou Ying Zheng.
“Majestade?” O semblante de Qing Xi mudou, pois captou uma nuance oculta nas palavras do imperador.
“Não importa. Mesmo com apenas um terço, já terei trabalho por muito tempo,” murmurou Ying Zheng, com um sorriso ambíguo.
Era, sem dúvida, uma técnica de espada dupla. Agora, só conhecia os movimentos da mão direita. E a esquerda? Quando ambas se combinassem, que espetáculo desvelariam? Ying Zheng aguardava, ansioso.
“Majestade levará cerca de um mês para dominar completamente esta arte,” ponderou Qing Xi.
“Um mês? Não é tão longo. Quanto tempo levou para você?” indagou o imperador.
“Quinze dias,” respondeu ela.
“Quinze dias... Não é uma resposta que agrada. Isso significa que meu talento não iguala ao seu?” Ying Zheng balançou a cabeça.
Uma criada tão ingênua como esta, de fato, deixa qualquer um sem palavras. Se fosse um déspota, só por este comentário já a teria punido.
“Não é isso, Majestade. Vossa Majestade dispõe apenas de um período de uma hora por dia para praticar, enquanto eu, à época, dedicava todo o tempo – exceto comer e dormir – ao treino desta espada,” explicou Qing Xi, ignorando o subtexto das palavras do imperador.
“Mesmo assim, é difícil alegrar-me,” brincou Ying Zheng, desviando a atenção para a espada em suas mãos.
Movendo o braço, desenhou no ar um arco com a lâmina, que girava suavemente como se seguisse uma trilha invisível.
Os olhos de Qing Xi acompanhavam o movimento, sem demonstrar impaciência pela lentidão do imperador – ao contrário, uma surpresa iluminava seu rosto.
Ela percebeu que, embora os gestos fossem lentos, a precisão era absoluta; cada detalhe, perfeito.
Após concluir a sequência, Ying Zheng sentiu que parte da energia rubra absorvida do caldeirão de Yongzhou na véspera fora assimilada por seu corpo. Não sentia cansaço algum; pelo contrário, seu estado físico melhorara.
A sensação de trapacear era demasiado agradável.
Ying Zheng voltou a praticar a espada, desta vez com velocidade superior à anterior.
Sob o olhar atônito de Qing Xi, repetiu a sequência uma terceira, quarta vez...
Ao terminar a sexta repetição, Qing Xi sentia-se insensível, quase entorpecida.
Praticar e aprender a arte da espada era tarefa extenuante, tanto para o corpo quanto para o espírito. Qing Xi lembrava bem: quando aprendera pela primeira vez, apenas uma vez fora suficiente para deixá-la ofegante. Agora, Ying Zheng treinava seis vezes sem pausa, sem o menor sinal de fadiga.
Seis vezes... Que conceito é esse? Espantada, Qing Xi seguia com o olhar o trajeto da espada, descendo pelo pulso, braço, ombro, peito, até que uma certa inquietação a fez desviar os olhos rapidamente.
“A resistência de Vossa Majestade supera em dez vezes a minha de outrora. Mesmo considerando que, à época, era alguns anos mais jovem, o poder interno de Vossa Majestade não se compara ao meu, o que descarta esse fator,” pensou Qing Xi, impressionada com sua descoberta.
“O que está pensando?” Ying Zheng, notando o espanto, perguntou curioso.
“A força de Vossa Majestade excede em dez vezes a de um homem comum,” respondeu ela, instintivamente.
“É mesmo? Então descobriu meu segredo,” disse Ying Zheng, devolvendo a espada ao estojo.
“Majestade?” Qing Xi percebeu a imprudência de sua fala, recordando um antigo preceito: assassinos precisam dos olhos mais perspicazes, mas criadas do palácio não devem enxergar nada. E agora, no papel de criada, cometera o erro de uma assassina.
“Uma criada como você me causará dor de cabeça,” disse o imperador.
“Majestade se refere a...?” hesitou Qing Xi, temendo pela própria vida.
“Agora que conhece os segredos do imperador, mesmo que eu deseje afastá-la, temo que não será possível,” respondeu Ying Zheng, fingindo resignação.
Qing Xi permaneceu em silêncio, sem saber se as palavras do imperador eram verdadeiras, ou se isso lhe seria benéfico ou prejudicial.