Capítulo Sete: Os Fracos
Pouco depois.
Os últimos sete brutamontes, uns com a garganta cortada, outros com o coração transpassado, tombaram um a um sobre o solo, logo exalando o último suspiro.
— Parece que esta noite não tomarei minha sopa quente — suspirou Si Yuan, resignado.
Vivia-se na Era dos Reinos Combatentes, tempos de guerra incessante, em que mortes em larga escala eram acontecimentos corriqueiros. Contudo, ao presenciar com os próprios olhos aquele chão semeado de cadáveres, não pôde evitar que uma onda de turbulência se agitasse em seu peito.
Emoções complexas e indecifráveis envolviam-lhe o coração.
O desejo de se tornar mais forte, que habitava em sua alma, tornou-se, naquele instante, ainda mais obstinado e indomável.
“Não quero que, algum dia, aquele que jaza no chão... seja eu.”
Virou-se, recusando-se a contemplar os inúmeros mortos espalhados pelo solo.
Dirigiu-se diretamente à pequena garota. Com a curta espada de bronze empunhada às costas, estendeu-lhe a mão esquerda, lançando-lhe um olhar de piedade silenciosa e contemplando-a em silêncio.
— Uuuh... uuh...! — A menina, recobrando os sentidos, irrompeu em um choro convulsivo, tomada de uma dor inconsolável.
Seus olhos transbordavam de terror e pavor.
E de uma tristeza densa e profunda.
— Em tempos de caos, a primeira coisa que deves aprender é a sobreviver com tenacidade — Si Yuan continuava a fitá-la, sem a menor intenção de consolá-la.
— Se não fores capaz disso, seria melhor morrer logo, para não desperdiçar comida enquanto vives.
A voz serena ressoava nos ouvidos da menina.
Ela tombou de joelhos no lago de sangue, debruçada sobre os cadáveres dos pais, soluçando em desespero, num pranto dilacerante, de cortar o coração.
A voz infantil já se fazia rouca.
— O pranto não resolve nada; apenas revela tua fraqueza aos olhos do inimigo.
— E aos fracos, não cabe lugar neste mundo.
— Pois a vida do fraco, e tudo o mais que lhe pertence, não está sob seu próprio domínio.
Recolheu a mão esquerda, há pouco estendida em compaixão.
Si Yuan voltou-se e seguiu, sem olhar para trás, rumo aos limites do clã.
Se já haviam surgido ali soldados estrangeiros disfarçados, ocultando suas identidades, não seria de surpreender se houvesse outros nas redondezas.
Permanecer ali por mais tempo não seria sensato.
— Irmão mais velho, obr... obrigada! — Soou atrás dele a voz entrecortada da menina, agradecendo em meio às lágrimas.
Logo ele ouviu o tropeço apressado de seus passos, sentiu que ela lhe agarrava com delicadeza a barra da túnica, as lágrimas de seu rosto pueril encharcando-lhe as costas.
— Irmão mais velho, posso ir contigo? — perguntou entre soluços, a voz infantil rouca e hesitante: — Mesmo que seja para servir como escrava, lavar tuas roupas ou aquecer tua cama, eu aceito.
— Eu... eu tenho medo...
Si Yuan, impassível, recusou com serenidade:
— Não podes.
— Po... por quê? — indagou, atônita, a menina.
— Neste mundo, nunca faltam escravos, lavadeiras ou quem aqueça camas — Si Yuan concentrou seu qi interior, sacudiu-se suavemente e livrou-se do braço delicado da menina.
— Não acolho inúteis e fracos.
Sem jamais olhar para trás, seguiu decidido adiante.
Mas não dera ainda muitos passos quando parou, hesitando por um instante; então, enfiou a mão esquerda no peito e dali retirou a Agulha de Fogo Espiritual.
Atirou-a para trás com um gesto rápido.
— Ssshhh...!
As agulhas vermelhas, planas e afiadas, cravaram-se ordenadamente na terra, diante da menina.
Palavras frias e serenas vieram da direção em que seguia:
— Se desejas tornar-te forte, não fujas do medo em teu coração; o medo não é fraqueza. O forte é aquele que faz o inimigo sentir um medo maior que o seu.
— Por teres ainda coragem de levantar, esta coleção de Agulhas de Fogo Espiritual é tua.
— Só vivendo bem é que haverá futuro.
Dito isso, Si Yuan partiu sem hesitar, afastando-se sem jamais lançar um último olhar.
...
...
Apenas quando a figura de Si Yuan sumiu de vista, a menina enxugou as lágrimas do canto dos olhos, agachou-se cuidadosamente e, com mãos infantis, retirou da terra as seis Agulhas de Fogo Espiritual.
Apertou-as com força nas pequenas mãos brancas, manchadas de sangue.
— Irmão mais velho, Yan’er não o esquecerá.
— Yan’er viverá, viverá bem... sobreviverá de verdade...
Ergueu-se.
Escondeu com cuidado as agulhas no forro das vestes, virou-se levemente para olhar para trás, onde o fogo consumia o clã, destruindo-lhe o lar, levando-lhe os pais e o irmão, que naquele dia se separaram dela para sempre.
À luz das chamas ardentes, seus belos olhos azul-claros refletiam uma determinação inabalável.
— De agora em diante, não chorarei mais como uma fraca.
— Enfrentarei a vida sempre com um sorriso.
— Mesmo que me consuma por toda a vida, ainda assim irei te encontrar, e derrotar-te com minhas próprias mãos, para que reconheças que não sou uma inútil.
— E esta dívida de gratidão, hei de retribuí-la, mesmo que me custe a vida...
...
...
Seguiu só, caminhando pela trilha de terra irregular.
Contemplando as montanhas verdes e as águas límpidas ao redor, as flores silvestres de mil cores e perfumes, Si Yuan meditava, preocupado:
“Suponhamos que neste instante haja mesmo um grande contingente do exército de Chu, disfarçado, infiltrando-se silenciosamente nos domínios de Yue.
Considerando o ódio mortal entre Chu e Yue, se for descoberto pelos soldados inimigos, nada de bom me espera. A qualquer momento, minha vida estará em risco.
Neste momento, só há uma forma de sobreviver: antes que me descubram, devo eu descobrir o inimigo, para então me esquivar e ocultar-me.”
Quanto ao modo de antecipar-se à presença alheia, Si Yuan refletiu por um momento e logo encontrou um método seguro e adequado.
“Os corpos dos mortos-vivos, que controlo à vontade, podem servir como sentinelas pessoais.
Entre as criaturas, as aves seriam a melhor escolha.”
Com o objetivo já traçado, ponderou sobre as limitações do corpo dos mortos-vivos, que, destruído, causa efeitos colaterais ao controlador; por isso, deveria agir com cautela, para não se prejudicar inadvertidamente.
“Se escolher uma ave veloz, poderei fugir com rapidez.
Mas, ao controlá-la com minha consciência, se voar rápido demais e encontrar obstáculos, talvez não consiga reagir a tempo.
É bem possível que acabe destruindo o corpo do morto-vivo por acidente.
Agora, se escolher uma ave que voe muito alto, no sul costeiro de Yue não existem tais espécies nativas; teria de buscá-las nas regiões de planalto.
Ou então, gastar uma fortuna tentando a sorte com mercadores itinerantes.”
...
...
Após cuidadosa ponderação, Si Yuan fez sua escolha.
“Não é preciso selecionar uma ave destacada; isso só a tornaria alvo fácil.
O melhor é uma espécie comum, pequena, numerosa, discreta e segura para servir de sentinela aérea.
O pardal, distribuído por toda parte, é a opção ideal.”
Tendo decidido que os pardais seriam os alvos para seus mortos-vivos, Si Yuan mudou de direção, adentrou alguns passos na mata à beira da estrada, prendeu a respiração e escutou atentamente, logo localizando um bando de pardais.
“Shua...!”
Com o corpo forte, saltou ágil, pisando de árvore em árvore, e desapareceu rapidamente daquele lugar.