Capítulo Cinco: A Menina no Lago de Sangue
Uma percepção tátil de uma acuidade inteiramente distinta daquela do corpo humano, estranha e insólita, fazia com que Sì Yuan se deixasse levar por um fascínio quase embriagador. Nenhuma das sutis alterações do ambiente ao redor escapava à sensibilidade da aranha.
“O sentido arácnido... verdadeiramente aterrador...”
“Essa capacidade sensorial é aterradora, ultrapassa em muito a dos humanos.”
Ao controlar aquele corpo de aranha de abdômen volumoso, ele ainda era capaz de perceber com nitidez o seu corpo original.
Era uma sensação peculiar.
Como se sua consciência principal permanecesse sempre em sua verdadeira forma, e apenas um fio de sua mente fosse projetado para habitar o corpo da aranha, substituindo-a para guiar seus movimentos.
“Isto se assemelha mais a algum tipo de marionete muito especial.”
“Uma entidade que posso manipular livremente, conforme minha vontade.”
“Será que existe alguma limitação de distância para esse controle?”
Esta questão crucial surgiu-lhe à mente.
Sì Yuan então comandou as oito pernas da aranha, que, vacilantes, arrastaram-se até a ponta de seu dedo. A seguir, com o talento ainda pouco hábil de expelir fios, aderiu uma extremidade da teia ao dedo.
Em seguida, valendo-se do fio, deslizou rapidamente até o solo.
“A sensação de expelir teia é estranha... é como se o corpo estivesse sendo drenado e esvaziado.”
Recobrando a compostura, afastou pensamentos dispersos.
Sì Yuan direcionou o corpo da aranha pelo caminho de terra, acelerando em linha reta, cada vez mais distante.
Correu até que suas pernas sentissem o cansaço e a fraqueza, incapazes de prosseguir.
Ainda assim, percebia com total clareza sua forma original, sem qualquer mudança em relação ao início.
“Controle de distância ilimitada? Ou ainda não alcancei o limite máximo?”
Abrindo os olhos, Sì Yuan avançou célere pela estrada de terra, passos leves e ágeis, decidido a reencontrar o corpo arácnido que deixara para trás.
Baixando ligeiramente a cabeça, contemplou a aranha de abdômen farto, agora quase exaurida no solo.
Refletiu, pensativo.
“O que acontecerá comigo se o corpo do morto-marcial for destruído?”
Levantou o pé, e sem hesitação esmagou a criatura sob sua sola.
“Splach!”
O abdômen redondo da aranha explodiu sob o impacto, exalando um líquido fétido que sujou tanto a sola do calçado quanto a terra, tornando irreconhecível a cabeça espalmada do animal.
“Ah!”
Sì Yuan inalou o ar com um leve estremecimento.
Instintivamente, levou a mão à testa; no exato instante em que o corpo do morto-marcial foi destruído, sentiu uma dor tênue na cabeça.
Um torpor abateu-lhe o espírito, e experimentou um desejo incontrolável de dormir e repousar.
Todavia, não era uma sensação intensa.
“A destruição do corpo morto-marcial realmente provoca uma reação adversa,” ponderou.
“Mas, ao menos, trata-se de uma sequela suportável.”
Franziu levemente o cenho, cogitando: “Talvez... o grau leve dessa reação esteja relacionado à força e robustez desse corpo arácnido.
Além do mais, o morto-marcial foi ativado e refinado pelo meu próprio qi interior, que, por sua vez, contém a marca do meu espírito.
Assim, a dor de cabeça e o cansaço devem decorrer de uma pequena lesão espiritual.”
“Fica claro que o corpo morto-marcial não pode ser destruído levianamente.”
Após seis anos de tentativas, finalmente, naquele dia, compreendeu de modo cabal as funções do Forno da Vida e da Morte.
Para Sì Yuan, tudo aquilo era um preço justo.
Só conhecendo a fundo poderia, de fato, utilizar com maestria.
“Agora, preciso afastar-me do vórtice da guerra e continuar a fortalecer-me.” Sem hesitar, Sì Yuan concentrou o qi nas pernas e, pela estrada, lançou-se em corrida vigorosa.
…
…
Ao entardecer.
Sì Yuan caminhava sozinho pela trilha montanhosa, cercado por paisagens de rara beleza, onde águas límpidas e montanhas verdes resplandeciam sob o fulgor do crepúsculo, tornando o cenário ainda mais magnífico.
“Há um clã nas proximidades. Passarei a noite ali.” Consultando seu tosco mapa, Sì Yuan examinou atentamente, determinando o destino daquela noite.
Guardando o mapa, alcançou uma bifurcação à frente.
Decidido, deixou a estrada principal e tomou um atalho mais estreito, seguindo com largas passadas.
Logo depois—
Ainda distante do local assinalado no mapa, Sì Yuan divisou ao longe uma tênue fumaça azulada subindo aos céus; instintivamente, levou a mão ao estômago.
“Com umas poucas moedas, poderei comprar uma sopa quente.”
Pensar em comida fresca e reconfortante acelerou-lhe o passo.
Mas, ao chegar ao destino, uma inquietação sutil lhe assaltou.
“Marcas de cascos no solo, cheiro de sangue no ar... Teria a guerra civil irrompido em Yue?”
“Mas, pelo cálculo, o rei Wujiang ainda não foi sepultado.”
Com uma breve hesitação,
Sì Yuan resolveu investigar mais de perto, na esperança de encontrar pistas.
Se restasse alguém vivo para interrogar, melhor ainda.
Ao longo do caminho,
diversas casas de madeira ardiam em chamas, exalando densa fumaça que subia aos céus.
Diante de cada morada, corpos jaziam tombados, homens, mulheres, velhos e crianças—um massacre impiedoso, sem deixar sobreviventes.
O sangue tingia de vermelho o solo e as paredes.
O odor pestilento de carne queimada, misturado ao fedor de fezes, urina e sangue, impregnava o ar e fazia Sì Yuan franzir o cenho de repulsa.
“Ah…!”
Nesse instante,
um grito agudo irrompeu não muito longe; não era alto, mas nítido.
“Algo está acontecendo!”
Sì Yuan imediatamente se dirigiu para a origem do som, cuidando de abafar seus passos.
Em poucos instantes,
chegou ao local, ocultando-se atrás de uma casa e espreitou por entre as frestas. O cenário que se descortinou diante de seus olhos foi este:
Um homem corpulento, de rosto escuro, empunhava uma lança longa de bronze, apontada obliquamente para o céu.
No topo da lança, suspenso, um menino de um ou dois anos, cujos bracinhos e perninhas frágeis tremiam em espasmos involuntários, a luta pela vida tornando-se cada vez mais débil.
Sangue rubro descia pela haste da arma, tingindo de vermelho o frio metal.
E, junto ao homem, no chão, jaziam dois adultos irreconhecíveis, caídos de bruços numa poça de sangue.
Entre eles, sentada no charco, uma menininha de quatro ou cinco anos,
A roupa acinzentada, a pele delicada outrora mais alva que a neve, agora enlameadas de sangue e terra.
O rostinho adorável estava lívido.
“Uuuh… uuuh…”
Lágrimas grossas escorriam-lhe dos olhos, abrindo trilhas límpidas no rosto sujo de sangue.
Os grandes olhos azul-claros, marejados, fitavam o homem corpulento com ódio intenso; mas, acima de tudo, havia um terror indizível.
Sentada no poço de sangue, a pequena tremia, as pernas fracas, incapaz de se erguer.
Com um gesto brusco,
o brutamontes atirou o corpo do menino, que tombou junto à menina.
Ao avançar para exterminar a criança, sentiu de súbito que era observado; então, guiado pelo instinto, voltou o olhar para o lado.
Seus olhos encontraram um par de pupilas brilhantes e cristalinas.