Capítulo Quarto — A Enseada Secreta

Para Bangsawan Agung Dinasti Song Sembilan Lubang 3306kata 2026-03-11 14:44:43

Ela adentrou pela porta dos fundos, saindo das trevas para o interior da casa banhada pela luz trêmula das tochas, trazendo consigo uma sensação estranha e indescritível. Embora Ye Chen estivesse momentaneamente atordoado por sua beleza fulgurante, sentiu, no entanto, que aquele surgimento repentino era de uma estranheza inquietante, o que o fez redobrar a vigilância em silêncio.

A dama trajava, na parte superior, uma túnica de verde pálido, de cauda de andorinha, cujas abas se sobrepunham em dobras elegantes, enfeitadas por fitas ondulantes; abaixo, uma saia ampla de cetim branco, presa à cintura por um largo cinto. Era a primeira vez que Ye Chen via tal indumentária, mas logo deduziu que ela seria apropriada a uma dama de ilustre família das grandes cidades, destoando completamente da atmosfera sombria e simples daquele lugar. Apesar disso, a postura da jovem era tão serena e natural, como se, de fato, estivesse em sua própria morada, tornando sua presença ali tão óbvia quanto a luz do dia.

Os cabelos negros e finos, sedosos como cetim, caíam-lhe pelas costas em cascata livre e espontânea. A pele, alva e translúcida como jade, realçava ainda mais a sobriedade do traje, destacando uma formosura delicada e encantadora. O que mais seduzia, contudo, eram os olhos – grandes, expressivos, como se pudessem falar – portando uma inocência pura, quase alheia ao mundo, que fazia dela a própria imagem de um lírio branco prestes a desabrochar.

Como se não notasse a presença de Ye Chen, ela deslizou até o outro lado da janela, espreitando lá fora, e murmurou suavemente: — Irmãozinho, o que faz aqui?

Sua voz era cálida e cristalina, dotada de uma musicalidade irresistível, translúcida e límpida, possuindo um estranho poder de encantar e arrebatar, tanto quanto sua beleza.

Ye Chen sentiu a mente vacilar por um instante, mas logo recobrou a lucidez, embora a inquietação em seu íntimo só aumentasse. Apresou-se em responder, abanando a cabeça: — Sou apenas um forasteiro de passagem.

Não importava de onde vinha ou o que pretendia aquela mulher, Ye Chen só pensava em se afastar dali assim que a patrulha Khitan se distanciasse, buscando refúgio em algum outro esconderijo mais seguro.

Porém, nesse exato momento, sentiu uma súbita dor aguda na coxa, como se fosse picado por uma agulha. Mordeu os lábios para não gritar e virou-se instintivamente.

— Então é mesmo só um jovem comum! — exclamou a bela, voltando-se para ele com um sorriso travesso e encantador, que era ao mesmo tempo inocente e sedutor.

Ye Chen, sem compreender, hesitou por um instante e, de distendido, seu semblante logo se contraiu em alarme. A dor na coxa transformou-se em um torpor ácido, um desconforto crescente que começava a se espalhar por todo o corpo.

“Isso... isso é veneno!”, pensou, aterrorizado, a voz saindo num sussurro rouco, mas sem jamais esquecer de mantê-la baixa. Olhava para a mulher, incrédulo, como se encarasse um demônio sob vestes de deusa.

Indignado, Ye Chen pensou consigo: “Eu nada fiz para provocá-la e, sem motivo, ela me envenena. Para ela, a vida humana nada significa. Bela como uma imortal, mas cruel como um demônio.”

Contudo, sabia que o mais urgente era expulsar o veneno. Além disso, pela destreza que ela demonstrara, Ye Chen, mesmo com sua experiência militar e algum conhecimento de combate, não seria adversário à altura. Ele já presenciara, certa vez, na fronteira de Yongle, o chefe da seita do Sul, Li Junhao, abater sozinho mais de vinte membros da gangue Khitan, exibindo artes marciais dignas dos mais fantásticos filmes do futuro – e então soube que tais mestres realmente existiam.

Sem ousar provocá-la, Ye Chen limitou-se a soltar um suspiro frio, afastou-se rapidamente até um canto do aposento, e, sem hesitar, sacou o punhal da cintura. Cerrou os dentes e, num gesto resoluto, cortou fora a pele e carne envenenadas, junto com a própria calça, numa área do tamanho da palma de uma mão, chegando quase ao osso da coxa.

Um gemido abafado escapou-lhe dos lábios, o rosto contraiu-se em dor mortal, o suor escorrendo em bicas pelo corpo. Ofegante, recostou-se à parede e deixou-se cair ao chão, como se toda a energia o tivesse abandonado.

— Que punhal afiado... Na verdade, aquele veneno não seria suficiente para matá-lo, apenas o imobilizaria — comentou, admirada, a jovem, com a mesma voz doce e melodiosa.

Ye Chen sabia que, mesmo que não morresse pelo veneno, bastaria mais um gesto da mulher para que sua vida se extinguisse. Mas, diante da rapidez com que o tóxico se alastrava, não havia tempo a perder.

Percebia que ela o observava com interesse, mas, entregue ao próprio destino, ignorou-a. Resistindo à dor, tirou do bornal o último pouco de pó hemostático trazido do futuro, espalhou-o sobre a ferida, e engoliu a seco as duas últimas pílulas de antibiótico que ainda possuía.

O ataque da jovem tinha dois propósitos: sondar Ye Chen para saber se era aliado, e usá-lo em algum intento próprio.

No entanto, ao vê-lo reagir tão decididamente, extirpando o veneno com frieza e brutalidade, ficou surpresa. Intuía que Ye Chen era diferente de qualquer um que já conhecera. Assim, decidiu que, se ele sobrevivesse ao desfecho daquela noite, por ora, pouparia-lhe a vida.

Silenciosa como uma sombra, a jovem acercou-se de Ye Chen. Seus dedos finos e alvos como jade tocaram-lhe a garganta num gesto rápido como o relâmpago, impossível de se esquivar, mesmo se não estivesse ferido.

Ye Chen sentiu uma dor aguda na garganta e seu grito morreu antes de ganhar voz. Horrorizado, percebeu que não conseguia emitir som algum. Não era apenas mudez – nem sequer um ruído podia produzir.

Olhou para a mulher com fúria, mas ela o fitava com uma expressão de curiosidade genuína, os olhos negros e límpidos como gemas preciosas. Passou-lhe a mão pelo verso do rosto, riu baixinho e murmurou: — Aqui no norte, raramente se vê alguém com a pele tão delicada, e ainda assim tão saudável quanto você.

Dito isso, tomou-lhe o punhal das mãos com destreza e o examinou, manifestando sincera admiração. Voltou a encará-lo, surpreendida, e de alto a baixo o avaliou, como se de repente repensasse quem estava diante de si. Os lábios entreabriram-se: — Hm... Existe mesmo, no mundo, punhal de forja tão primorosa e corte tão afiado? Quem, afinal, é você?

Era evidente que falava mais consigo mesma que com Ye Chen, sem esperar resposta – ao menos, não por Tas.

Ye Chen não sabia se ria ou se enfurecia. Ela, que o envenenara, agora portava-se como se nada houvesse ocorrido. Com a patrulha khitana já longe, sua convicção se consolidou: havia outro motivo para a presença daquela mulher ali, como se aguardasse alguém, temendo expor sua identidade.

Fosse como fosse, Ye Chen não ousava exigir explicações, mas, gesticulando, tentou dizer: “Devolva-me meu punhal.”

A jovem sorriu docemente, abrindo as mãos alvas num gesto pueril: — Sumiu! – De fato, o punhal desaparecera por completo, oculto sabe-se lá onde, com uma habilidade espantosa.

A seguir, voltou-se para a janela, fitando a rua com ar atento.

Nesse momento, o último soldado khitano acabava de deixar o trecho de rua em frente à casa.

Ye Chen esboçou um sorriso silencioso, desistindo de tentar falar ou fugir. Sabia que aquela mulher, de beleza deslumbrante, jamais o deixaria partir; tentar escapar só reacenderia sua fúria. Restava-lhe apenas aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

Não importava quão adversa fosse a situação, Ye Chen não pretendia ceder. Pensou um instante e, de novo, gesticulou, comunicando: “Dou-lhe o punhal, mas poupe-me a vida. Aconteça o que acontecer, não atrapalharei seus planos.”

Os olhos expressivos da jovem divertiram-se ao constatar que Ye Chen, mesmo em silêncio, fazia-se entender tão claramente através dos gestos. Após compreender-lhe o pedido, franziu ligeiramente o cenho, manifestando leve desdém, e, em seguida, assumiu um ar contrariado e um pouco aborrecido: — Uma moça tão linda como eu, há tanto tempo aqui, e você nem sequer se apaixonou por mim! Se gostasse de mim, talvez eu não só lhe poupasse a vida, como também me oferecesse a você!

Ye Chen sabia bem que tudo não passava de gracejo, mas, diante de tamanha formosura e voz tão sedutora, viu sua animosidade esvair-se, como se fosse impossível odiá-la.

Sentiu-se estranho. “No meu tempo, já vi das mais belas mulheres e as mais tentadoras cenas. Como, então, ceder tão facilmente aos encantos desta mulher, ao ponto de quase baixar a guarda?”

Sorriu amargamente e fechou os olhos, buscando recompor-se e, ao mesmo tempo, arquitetar uma forma de escapar.

A jovem, ao perceber que Ye Chen resistia com tamanha facilidade à sua sedução, não pôde deixar de se surpreender. Era a primeira vez que via um homem comum reagir tão prontamente a seus encantos.

Sua curiosidade por Ye Chen aumentou ainda mais; e, lembrando-se do punhal que tomara dele, sentiu-se cada vez mais intrigada por aquele estranho.

Indo até a janela, acenou-lhe com um gesto delicado: — Venha, fique aqui comigo, vamos ver o que acontece lá fora.

Ye Chen sabia que, por mais gentil que sua voz soasse, seu temperamento era volúvel e implacável. Desobedecê-la poderia lhe custar a vida. Portanto, embora a dor na coxa fosse intensa, aproximou-se penosamente da janela, parando a um passo da jovem, imitando-lhe o gesto de espiar a rua.

De repente, Ye Chen se deu conta: aquela mulher, embora venenosa e imprevisível, exercia sobre ele uma atração irresistível, sem que percebesse. Ainda agora, ao ceder à sua presença, sentia, lá no fundo, o desejo de se aproximar dela.

Fitou-a, então. À luz difusa da lua, o perfil dela era de uma perfeição esculpida, a pele suave e viçosa, exalando juventude e vigor, o pescoço longo e alvo como o de um cisne emergindo do decote, sugerindo, irresistivelmente, a visão de um corpo feminino de beleza suprema.

Ela voltou-se para ele, Ye Chen desviou o olhar, constrangido, o que a fez soltar uma risada leve: — Atrevido! Quer aproveitar-se de mim com os olhos?

Ye Chen sentiu o coração palpitar, percebendo que aquela provocação era também uma armadilha. Ia responder, quando, pelo canto do olho, viu alguém surgir repentinamente na rua, tão silencioso e espectral quanto um fantasma. Ficou lívido de espanto.