Volume I A Véspera do Despertar Capítulo Oito A Profissão dos Bravos 2
Não imaginavam que a verdade pudesse ser tão cruel.
Neste momento, todos prenderam a respiração sem perceber; em alguns rostos lia-se incredulidade, em outros, hesitação, e até mesmo uma sutil intenção de recuar. Excetuando Pang Yu e Lu Xiaofei, todos presentes eram pessoas de posses consideráveis, e sua hesitação era compreensível.
A recusa do pai em apoiá-lo, enfim, tinha uma razão? O outrora entusiasmado Hu Shifei agora também hesitava; afinal, como herdeiro do Grupo Hu, ainda sonhava em suceder os negócios da família.
Quase todos pensaram no mesmo: a tão aguardada conferência anual dos cristais não passava talvez de um disfarce; publicar um segredo interno de tamanha gravidade só poderia prejudicar ainda mais as já custosas vendas dos cristais da vida.
Mas, ao contrário dos demais, Lu Xiaofei sentia-se inexplicavelmente excitado; não sabia se era medo, mas seu coração pulsava com uma emoção desconhecida.
Por um instante, chegou a suspeitar: teria o desaparecimento de seus pais alguma relação com a Cidade Feimo? Quem eram eles, para onde foram, ainda estariam vivos? Essas eram dúvidas que há muito o atormentavam.
Se pudesse tornar-se um poderoso manifestador, talvez conseguisse seguir-lhes o rastro neste mundo.
Pensando assim, a curiosidade sobrepujou o medo, e seus olhos cintilaram como estrelas.
Num lapso, o professor Shao Bufan, ao olhar para Lu Xiaofei, fez uma breve pausa, um aceno quase imperceptível de cabeça, como se quisesse sugerir algo.
— Talvez achem que estou exagerando, que a Cidade Feimo não é tão aterradora quanto digo. Afinal, nossa vida parece pacífica, não é? Pois então, vejam — o professor Shao apontou para o vazio.
O telão ao fundo do palco acendeu-se novamente.
Antes que pudessem digerir o que acabavam de ouvir, a atenção de todos foi capturada pela imagem.
Tratava-se de um vídeo gravado por uma câmera de manifestação, utilizando tecnologia de reconstrução de cenas — a sensação de realismo era avassaladora.
Ruas agitadas de estilo ocidental, jovens loiros e de olhos azuis riam e passavam, como numa tarde típica de fim de semana.
Diante de um muro grafitado com campos ao amanhecer, três garotas ocidentais dançavam street dance com entusiasmo; minissaias ondulavam, longas pernas envoltas em meias translúcidas rodopiavam com graça.
Os espectadores aplaudiam, assobiavam em meio a risos descontraídos.
No instante seguinte, a cena mudou abruptamente.
Um trovão ensurdecedor, um edifício desabando, e do meio dos escombros irrompe um touro colossal e monstruoso; as jovens, sem entender o que se passava, foram transpassadas pelos chifres afiados, suspensas no ar.
Não houve resistência. Sangue jorrava das feridas, escorrendo pelas pernas, a cor chocante aos olhos.
— Aooooooouuuuu! —
O touro enlouquecido investiu contra a multidão...
Caos absoluto.
A câmera caiu com um estalo; a imagem alternou para um céu azul pálido, mas os sons eram de gelar o coração.
Entre o estilhaçar arrepiante de vidros, ouviam-se mugidos ásperos, gritos de mulheres e crianças, paredes em chamas desabando, ossos e corpos esmagados sob cascos — um cenário digno dos infernos.
Por fim, a lente foi rapidamente tingida por um vermelho vívido e aterrador.
Quando a imagem congelou, todos se deram conta: aquilo era apenas uma cena de desastre já ocorrida.
— Este foi um ataque de um manifestador sombrio ocorrido no mês passado, no Ocidente. O poder da Cidade Feimo já penetrou o âmago do mundo ocidental, e a vida lá tornou-se um caos, a segurança nem sequer é garantida. Esses manifestadores de alma corrompida se ocultam na sociedade como qualquer pessoa, mas, uma vez que a energia negativa em seus corações supera o limiar, transformam-na em manifestações destrutivas e iniciam sua vingança contra a sociedade. Todo e qualquer um à sua frente torna-se alvo de ataque — a voz do professor Shao ressoou, rouca e grave.
Por algum motivo, o touro insano do vídeo parecia familiar a Lu Xiaofei, como se já o conhecesse há muito.
— Touro Enfurecido! — Lu Xiaofei exclamou, pronunciando um termo estranho, como se surgisse do nada em sua mente.
"O que está acontecendo?" — perguntou-se, enquanto uma torrente de informações irrompia-lhe na consciência.
Touro Enfurecido: criatura negativa manifestada por um manifestador sombrio em estado de mania; possui grande defesa corporal, com um ponto fraco — a cartilagem ao centro da testa.
Uma dor lancinante tomou-lhe a cabeça; Lu Xiaofei agarrou os cabelos, sacudindo-se para expulsar aquela consciência aterradora.
Jamais tivera contato com manifestação, salvo na Academia dos Despertos, onde tais conhecimentos eram segredos de Estado; pessoas comuns raramente sabiam, e menos ainda dominavam com tamanha precisão. Para ele, aquela enxurrada de informações só podia ser alucinação.
Dizia-se que, sob forte estímulo, o cérebro humano podia alucinar, até se fragmentar. Ele, definitivamente, não queria enlouquecer.
— Xiaofei, o que houve? Está bem? — a voz preocupada de Pang Yu trouxe-o de volta à realidade.
— Estou bem, acho que foi só o choque — forçou um sorriso.
Vendo-o responder, Pang Yu suspirou aliviado: — Se já ficou apavorado assim, nem pense em virar manifestador.
Olhou ao redor; do outro lado da mesa, Hu Shifei exibia pânico nos olhos.
No salão, alguns já choramingavam; a maioria era de jovens herdeiros, jamais expostos a tamanha carnificina.
Todos estavam atônitos. "O que está acontecendo no Ocidente?"
— É como cena de filme de terror! Um massacre, puro sangue, classificação máxima!
— Cielos, ainda bem que não viajei mês passado! Vai saber onde estaria agora...
— A China é mesmo o país mais seguro do mundo!
— Então isso é um manifestador sombrio? Aquele touro nem é criatura deste mundo, só pode ser manifestação!
Logo entenderam: a estabilidade e prosperidade da China eram frutos da luta sangrenta dos manifestadores da Aliança do Trovão; sem manifestações, pessoas comuns não teriam chance contra um manifestador sombrio — a morte certa, sem deixar vestígios.
De fato, neste mundo, não há paz garantida.
Apenas Pang Yu e Lu Xiaofei mantinham alguma cor no rosto; os demais estavam pálidos como papel.
Na visão deles, manifestadores eram sinônimo de poder, glória, transcendência — jamais haviam imaginado enfrentar monstros tão horrendos.
Shao Bufan lançou um olhar à plateia, já com tudo calculado em mente. O peso em seu peito era inevitável: estes jovens eram demasiado ingênuos. Apenas aqueles dois do fundo pareciam ter fibra, mas careciam de talento; era a última rodada e ainda restava uma vaga.
Parece que mais uma vez não haverá frutos. Os próximos passos serão mera formalidade, pensou, suspirando silenciosamente. Então disse, em voz pausada e firme:
— Por isso, manter os manifestadores da Cidade Feimo fora de nossas fronteiras, protegendo a paz e estabilidade da pátria, é dever de todo manifestador chinês! Expus-lhes tudo isso porque, em breve, talvez alguns de vocês, estimulados pelo cristal X51, revelem potencial para se tornar manifestadores. Se alguém aqui sente medo, se o coração vacila, não suba ao palco — não desperdice a oportunidade. Manifestador é vocação para os corajosos. Agora, enquanto tudo ainda não começou, ainda é tempo de se arrepender!
Sabia que, ditas estas palavras, a conferência estava encerrada: nenhum daqueles jovens era adequado.
Desapontado, lançou um olhar a Lu Xiaofei — este tinha força de espírito, mas faltava-lhe criatividade.
Logo, percebeu algo estranho: como alguém teria criatividade igual a zero? Nem o cérebro de um símio ficaria abaixo de vinte!
Aquele jovem, decididamente, não era tão simples quanto parecia!
— O professor Shao está olhando para cá... Terá me reconhecido? Será um incentivo para eu não desistir? — pensou Lu Xiaofei, ingênuo, inflamado pelo discurso e pelo olhar “incentivador” do professor, sentindo-se mais confiante.
De repente, tudo se esclareceu.
A conferência anual dos cristais da vida Baiyunhai não era mera apresentação de novidades; aquelas informações confidenciais, se vazassem, causariam pânico social, mas ali eram reveladas abertamente aos participantes.
Tudo aquilo talvez fosse, na verdade, um processo secreto de seleção de manifestadores!
Era informação demais. Lu Xiaofei respirou fundo, esforçando-se por relaxar, sem saber se podia confiar em suas próprias deduções.
— De qualquer forma, preciso tentar. Não quero passar a vida na mediocridade! — apertou o punho, resoluto. Que importava o perigo? Não é para desafiar-se que se vive? De outro modo, que sentido teria a existência?