Capítulo Quatro — O Casamento Forçado
Após um breve momento de perplexidade, Qin Feng balançou levemente a cabeça e empurrou o cartão bancário de volta.
— Perdão, não posso aceitar.
Nos olhos de Xu Yanran brilhou um fulgor insólito; por dentro, sua admiração por Qin Feng apenas se intensificou.
Sem saber ao certo o que lhe veio ao pensamento, Xu Yanran suspirou de súbito, e em seu olhar insinuou-se uma tristeza indizível:
— Não me entenda mal. Na verdade, só preciso que me faça um favor.
…
Salão da residência dos Xu.
O patriarca da família, Xu Pingfeng, estava sentado na principal posição, o semblante carregado por uma expressão difícil de descrever; um clima de opressiva gravidade pairava sobre todo o salão.
— Senhor Xu, este casamento foi acertado por ambas as famílias. Se a senhorita Xu não for encontrada, não será apenas a nossa família Zhang que terá de lidar com o vexame.
Logo abaixo, sentava-se um ancião vestido com traje tradicional chinês, fitando Xu Pingfeng com um sorriso enigmático.
Embora sua voz fosse cortês, suas palavras transbordavam ameaças veladas.
Este ancião era ninguém menos que Zhang Yuqing, o velho mordomo da família Zhang, a mais rica de Qingcheng.
Ao receber um telefonema do patriarca, relatando o desaparecimento da jovem senhorita Xu, prometida em casamento ao primogênito dos Zhang, Zhang Yuqing viera pessoalmente tratar do assunto.
Ao ouvir a menção do noivado, a expressão de Xu Pingfeng tornou-se ainda mais sombria.
Há pouco, as famílias Xu e Zhang haviam firmado um acordo matrimonial.
A senhorita Xu Yanran, primogênita dos Xu, e Zhang Baiyi, o herdeiro dos Zhang.
Todavia, esse enlace não era como os casamentos comuns, mas sim uma união entre dois mortos.
Xu Yanran sofria de uma doença terminal, e sua vida estava por um fio — fato notório entre as altas rodas de Qingcheng.
O mesmo se dava com o primogênito dos Zhang, igualmente acometido por enfermidade incurável, com os dias contados.
Assim, ambas as famílias pactuaram celebrar o matrimônio de dois condenados.
Os convites já haviam sido enviados.
Agora, porém, a senhorita Xu simplesmente desaparecera.
Se não a encontrassem, o enlace tornar-se-ia motivo de escárnio para ambas as famílias.
— Já enviei pessoas para procurá-la — suspirou Xu Pingfeng profundamente. O pensamento de ver a filha amada casando-se de forma tão trágica apertava-lhe o coração.
Mas, talvez este fosse o melhor desfecho para sua filha. Ter companhia seria, ao menos, preferível a trilhar sozinha o caminho para o submundo.
— Pois bem, aguardarei aqui por boas notícias — disse o velho mordomo Zhang Yuqing, sorvendo um gole de chá com um sorriso.
Nesse instante, alguém entrou apressado, dirigindo-se a Xu Pingfeng:
— Patriarca, a senhorita retornou!
O abatido Xu Pingfeng endireitou-se de súbito:
— Onde está ela?
Mal terminara de falar, um homem e uma mulher adentraram o salão dos Xu.
Eram Xu Yanran e Qin Feng.
— Pai, estou curada — disse Xu Yanran, apontando para Qin Feng a seu lado.
Xu Pingfeng ficou atônito por um instante; logo, porém, seu rosto se iluminou em júbilo, a ponto de quase saltar de alegria.
— Filha, é verdade o que dizes? — Xu Pingfeng sonhara incontáveis vezes com a recuperação da filha, mas, ao ouvi-la afirmar com os próprios lábios, custava-lhe a acreditar.
Os mais renomados médicos do país haviam examinado sua filha, mas nem mesmo a causa da doença fora descoberta. Agora, de súbito, estava curada — era difícil crer.
— Sim, estou realmente curada — assentiu Xu Yanran.
— Bom, bom, bom!
A emoção fez todo o corpo de Xu Pingfeng tremer, e lágrimas de felicidade lhe escorreram pelo rosto.
Chorava de alegria.
Sua filha, desde pequena, jamais mentira. Se dizia uma coisa, era porque assim era.
Se ela afirmava estar curada, era porque realmente estava.
Xu Pingfeng enxugou os cantos dos olhos com a manga; afinal, esperara por este dia durante tanto tempo.
— Pai, permita-me apresentar-lhe: este é meu salvador, e também… meu noivo.
Xu Yanran apontou para Qin Feng, tornando a falar.
Ao ouvir “salvador”, Xu Pingfeng sorriu radiante, já cogitando como retribuir a Qin Feng. Mas ao escutar as palavras “meu noivo”, primeiro estacou, e logo lançou um olhar estranho em direção ao velho mordomo Zhang Yuqing.
O mordomo Zhang Yuqing também levantou os olhos.
Ao perceber que Xu Yanran, antes condenada pela doença, agora exibia vigor e cor rubra no semblante, Zhang Yuqing estreitou os olhos, surpreso.
Seria possível que ela estivesse mesmo curada?
— Hum-hum… Senhor Xu, já que a senhorita foi encontrada, suponho que o casamento entre nossas famílias poderá acontecer normalmente, não é mesmo? — O mordomo pigarreou, fitando Xu Pingfeng com olhos baços, pressionando-o por uma decisão.
O rosto de Xu Pingfeng imediatamente se ensombrou; respondeu, contrariado:
— Senhor Zhang, minha filha está curada. Desejaria ainda que ela se casasse com vosso primogênito, condenado à morte?
— Perdoe-me a franqueza, mas não quero que minha filha seja viúva de um vivo.
Xu Pingfeng apontou para Qin Feng:
— Além disso, como ouviu, minha filha já tem um noivo.
— O noivado entre nossas famílias está, pois, desfeito.
A decisão de Xu Pingfeng era firme e irrefutável.
Toc, toc, toc!
O velho mordomo Zhang Yuqing bateu na mesa com mãos quase esqueléticas.
Logo depois, soltou uma gargalhada rouca, de arrepiar.
— Patriarca Xu, pretende então romper o noivado?
— E se for? — Xu Pingfeng, sem mais máscaras, respondeu com franqueza.
Com um estrondo, uma xícara de chá foi atirada ao chão, e os membros da família Xu acorreram ao salão.
— Patriarca!
— Patriarca!
— Patriarca!
O velho mordomo Zhang Yuqing logo se viu cercado pelos Xu.
O ambiente tornou-se, de súbito, tenso como uma lâmina desembainhada.
— Ha, ha, ha! Patriarca Xu, para que tamanho alarde? Tenho uma solução que dispensa o casamento de sua filha com meu jovem senhor condenado, e evita que destruamos o laço entre Zhang e Xu…