Capítulo Oito: Lianyu Retorna à Mansão
Atualização: 11 de maio de 2013
Quando Qingqiu adentrou o recinto, Lian Yue narrava, entusiasmada, o momento mais emocionante da aposta em que ela e o irmão mais velho se enfrentaram no mês passado. Ao avistar Qingqiu, apressou-se a apontá-la, sorrindo travessamente: “Vovó, aquela é a terceira montanha verde de que lhe falei, a mesma que a irmã Lan fez perder um dente...”
Embora Qingqiu ainda estivesse algo distante de Lian Yue, os sentidos aguçados de quem pratica as artes marciais permitiram-lhe distinguir, ainda que vagamente, as palavras “perder um dente”. Compreendendo, pois, que a jovem senhorita relatava o episódio daquele dia, baixou a cabeça e esboçou um sorriso amargo; afinal, quem manda ser inferior em destreza? Contudo, sua voz permaneceu inalterada ao avançar para comunicar: “O cortejo da senhora mais velha já entrou na cidade, e neste momento dirige-se à Mansão Yue. Em cerca de um quarto de hora, estará aqui.”
Qian Shi lançou um olhar avaliador sobre Qingqiu. “Bem, entendi. Então você é Qingqiu.”
Qingqiu fez uma mesura e respondeu, respeitosa: “Sim, senhora. Sou eu mesma.”
Qian Shi, ao contemplar a jovem diante de si, percebeu que, embora ainda houvesse nela traços de inocência, sua postura impassível diante de elogios ou agravos já era admirável. Satisfeita, assentiu e voltou-se para Yue Lingjun: “Os quatro que te acompanham são, de fato, muito bons.”
Qingfeng e Qingluan, que estavam ao lado de Yue Lingjun, ouviram o elogio da anciã e apressaram-se a juntar-se a Qingqiu, dizendo em uníssono: “Qingfeng, Qingluan, Qingqiu e Dai Qingling agradecem o elogio da senhora!”
O coração de Yue Lingjun também se alegrou ao ouvir sua avó elogiar os acompanhantes, mas um quarto de hora era tempo precioso e todos ainda deveriam ir à porta principal receber a irmã mais velha. Afinal, ela era a Princesa de Nanping, e não se podia demonstrar descortesia. Assim, consultou Qian Shi: “Vovó, minha irmã está prestes a chegar. Permita que eu leve os demais para recepcioná-la na entrada.”
Lian Yue, ao saber que o irmão iria receber a irmã, preparou-se para levantar-se, mas Qian Shi discretamente segurou sua mão, impedindo-a.
“Sim...” Qian Shi lançou um olhar impassível na direção de Yue Zhancheng e Yue Zhanyu antes de continuar: “Yuer, embora seja filha da família Yue, afinal casou-se com a família imperial e, ademais, é a esposa do Príncipe de Nanping, o mais estimado pelo imperador. Não se pode descuidar do decoro. Ordene a todos: quem quer que se esqueça das regras e envergonhe o nome da família Yue, não reclame se eu cobrar a conta depois!”
Sabendo que a avó tinha outro alvo em mente, Yue Lingjun respondeu, ainda assim, com firmeza: “Sim, vovó, fique tranquila.”
Yue Zhancheng e Yue Zhanyu trocaram um olhar, ambos percebendo o desalento nos olhos um do outro. Já pretendiam ir receber a princesa, mas diante da advertência de Qian Shi, não lhes restava alternativa senão levantar-se e pedir licença: “Tia, o cortejo da Princesa de Nanping já entrou na cidade; vamos aguardar à porta principal.”
“Podem ir.” Desta vez, Qian Shi nem sequer ergueu a cabeça. Ao ouvirem suas palavras, todos os membros da família Yue seguiram os dois rapazes, deixando o salão principal. Yue Lingjun, que precisava inspecionar pessoalmente a entrada, viu a irmãzinha ainda aninhada nos braços da avó e, após uma reverência, retirou-se para cumprir sua obrigação.
Lian Yue ergueu o olhar para a avó e depois contemplou o perfil dos tios já de costas. Em seu olhar confuso surgiu uma centelha de compreensão, e sentiu, então, a avó afrouxar a mão que há pouco a segurava com firmeza.
A anciã mantinha o rosto bondoso de sempre: “Pronto, Yuer está prestes a chegar. Vá também até a entrada.” Enquanto falava, ajeitou pessoalmente as vestes de Lian Yue.
Lian Yue lançou um olhar suplicante para a porta, mordeu o lábio e hesitou: “Talvez... eu devesse ficar aqui, fazendo companhia à vovó?”
O coração de Qian Shi encheu-se de ternura ao ouvir tais palavras; afinal, era sua neta de sangue, que, mesmo desejando ir, não se esquecia dela. Contudo, conhecia bem os anseios de uma jovem donzela; sorriu e abanou a cabeça: “Vá, sim. Assim que Yuer descer da carruagem, com certeza também vai querer ver você. Eu ficarei bem, tenho Ying Gu para me acompanhar.”
Ying Gu, sorrindo, confirmou: “Não se preocupe, jovem senhorita. Estarei aqui com a velha senhora.”
Lian Yue, que temia que a avó ficasse sozinha, sentiu-se tranquila com suas palavras e a garantia de Ying Gu. Fez uma reverência e deixou o salão.
Assim que cruzou o umbral, Lian Yue ergueu as saias e correu em direção à entrada principal, deixando para Ziling, que acabava de sacudir a capa, apenas a visão de suas costas esguias.
Lanshui, que vinha por último, testemunhou a cena e apressou-se a tomar a capa das mãos de Ziling. Usando sua leveza de movimentos, interceptou Lian Yue e cobriu-a cuidadosamente, advertindo-a com suavidade, mas certa repreensão: “Por mais apressada que esteja, deve vestir a capa. Se a senhora mais velha vir você assim, mesmo que não a repreenda, Ziling será punida.”
O lembrete de Lanshui fez Lian Yue recordar que sua irmã mais velha não tolerava relaxamento por parte dos servos. Uma criada anterior, por um pequeno descuido, fora punida e dispensada, levando à entrada de Ziling... Lian Yue estremeceu ao lembrar disso, percebendo que, na ânsia de rever a irmã, quase causara problemas a Ziling, com quem tanto se afinava.
Olhou, então, para Ziling, que acabava de alcançá-la, ainda ofegante, e sentiu um peso de culpa. Esperou que ela recuperasse o fôlego antes de seguirem juntas, agora sem correr, apenas apressando o passo.
Quando as três chegaram à entrada principal, o coche da irmã mais velha ainda não havia chegado. Lian Yue avistou de imediato o irmão mais velho à frente e, acompanhada de Lanshui e Ziling, dirigiu-se rapidamente a ele, receosa de ser cercada novamente. Mas, desta vez, a atenção de todos estava voltada ao iminente cortejo da Princesa de Nanping; somado ao temor pela severidade de Qian Shi e ao receio de cometerem alguma infração, Lian Yue conseguiu, sem dificuldades, posicionar-se ao lado de Yue Lingjun.
Como poderia Yue Lingjun não perceber os sentimentos da irmãzinha? Ele mesmo, se pudesse, manteria a maior distância possível. Enquanto ajeitava o chapéu torto da irmã, disse: “Pensei que ficaria com a vovó.”
Lian Yue explicou: “Eu queria, mas foi a vovó quem me mandou vir.”
Após olhar cautelosamente ao redor, inclinou-se e sussurrou: “Mano, você sabe que, embora eu sempre tenha tido receio da nossa irmã mais velha, ela sempre me tratou tão bem que, se eu não viesse, ficaria magoada... Quem sabe não descontaria nos que estão comigo... Não acha, mano?”
Yue Lingjun olhou, sem palavras, para a irmã travessa, prestes a responder quando avistou o cortejo que se aproximava do portão da mansão.
Enquanto Lian Yue aguardava, também percebeu a chegada do cortejo: quatro guardas montados em cavalos imponentes flanqueavam um jovem de robes suntuosos, que liderava a comitiva. Três carruagens vinham logo atrás, ladeadas por duas fileiras de soldados em passo ritmado, exalando uma atmosfera severa e imponente—visivelmente não eram pessoas comuns. Yue Lingjun não escondeu a admiração no olhar.
O cortejo parou suavemente diante do portão, e a primeira carruagem, trabalhada em luxuoso sândalo roxo com portas duplas de ouro, deteve-se diante dos irmãos Yue. De seu interior, com o auxílio de uma criada, desceu uma bela dama, cabelos presos em coque alto, vestida com um manto de seda azul-pavão, bordado de peônias e arrematado a ouro.
Ao contemplar a bela dama, os olhos de Lian Yue imediatamente se encheram de lágrimas. Yue Lingjun, embora mais contido, não conseguiu disfarçar a emoção; afinal, era aquela irmã mais velha que cuidara deles desde pequenos, quase como uma mãe. A dama era a queridíssima Yue Lianyu.
“Irmã...” murmurou Lian Yue, já com a voz embargada.
“Yue’er, Jun’er...” A emoção também tomou conta de Yue Lianyu, seus olhos umedeceram, mas, já não mais a jovem inexperiente de outrora, conteve-se antes de prosseguir: “Vocês têm passado bem nestes anos? Não guardem mágoa de sua irmã. Jamais imaginei, à época, que me casaria para tão longe...”
As lágrimas represadas de Lian Yue finalmente transbordaram. “Não culpo a irmã, apenas sinto saudades... Sinto tantas saudades!”
Diante da irmãzinha em prantos e do irmão tentando conter a emoção, Yue Lianyu não resistiu e, abraçando-os, deixou-se levar pelo reencontro, esquecendo por um instante a plateia à sua volta.
A Sra. Ma, sentindo-se contrariada, quase foi interromper os três, mas um olhar de seu marido, Yue Zhancheng, a fez recuar, recolhendo o pé já avançado. Os demais tampouco ousaram mover-se, tornando-se, assim, meros espectadores do reencontro dos irmãos.