Capítulo Sete O Anúncio do Retorno

Enam Jalan Sang Resi Dewa Yun Tingfei 2446kata 2026-03-14 14:42:54

Capítulo Sete – O Anúncio do Retorno

Ao regressar à sua morada, Bi Fan iniciou sua prática no terreno plano diante da casa de bambu. Ele pouco se importava com títulos como “gênio” ou “talento extraordinário”; para ele, apenas a diligência era o verdadeiro caminho régio.

A senda do cultivo assemelha-se a remar contra a correnteza: quem não avança, regride. Este era o conselho sincero que Yu Siyen deixara a Bi Fan, palavras que ressoaram como um elixir precioso, influenciando profundamente sua trajetória posterior.

Durante o dia, Bi Fan praticava o Punho dos Antepassados; à noite, mergulhava nos mistérios do Método Demoníaco do Sangue. Este compêndio continha instruções para o cultivo do qi interno, técnicas de movimentação, artes marciais refinadas e métodos para temperar a força física—um verdadeiro arsenal.

Contudo, apenas pelo nome, sabia-se tratar de um manual do Caminho Demoníaco. Desde tempos imemoriais, ortodoxia e demonismo eram opostos inconciliáveis; cultivadores do Caminho Reto sentiam prazer em exterminar os seguidores do demonismo.

Na seita Qingyang, Bi Fan ouvira inúmeras histórias de erradicação do mal e proteção do justo, por isso não ousava praticar levianamente as técnicas contidas no Método Demoníaco do Sangue.

Não obstante, mesmo sendo um recém-iniciado, Bi Fan logo percebeu que este manual era muito superior a qualquer outro. Abandoná-lo seria, de fato, um desperdício. Resolveu, portanto, estudá-lo por algum tempo antes de decidir se o cultivaria ou não.

Após algumas noites de análise, descobriu que muitos dos ensinamentos do Método Demoníaco podiam ser praticados sem que se notasse sua procedência, desde que não cultivasse o qi interno. As técnicas eram cruéis e implacáveis, de poder descomunal—poderiam, em momento crítico, salvar-lhe a vida.

Por fim, Bi Fan decidiu-se pelo aprendizado do Método Demoníaco do Sangue, mas reservou a prática para as altas horas da noite, evitando assim ser visto.

Compreendeu, então, que conceitos como “caminho reto” ou “demoníaco” nada lhe diziam respeito; o que importava era o poder. Não sofrera lavagem cerebral das grandes seitas, tampouco nutria ideais de erradicação do mal; queria apenas tornar-se forte, proteger-se.

Desde que não expusesse as técnicas demoníacas, não haveria perigo. E, de fato, o progresso era visível: ao praticar os métodos de fortalecimento físico do Método Demoníaco, evoluía muito mais rápido do que com o Punho dos Antepassados.

Tendo provado a doçura do poder, Bi Fan não mais cogitou abandonar tal prática.

Dez dias se passaram. Bi Fan avançou a passos largos; sua força de punho alcançara novecentos e noventa e nove jin, a um passo de adentrar o Reino da Força Marcial.

Sem um avanço, por mais que se esforçasse, sua força não aumentaria. Assim, voltou-se para as técnicas de movimentação e artes marciais do Método Demoníaco. Embora, sem qi interno, não pudesse liberar todo o poder dessas técnicas, nada o impedia de aperfeiçoar os movimentos.

Além disso, o domínio dessas técnicas certamente lhe seria útil em combate.

Em geral, cultivadores que ainda não atingiram o Reino do Qi Interno não recebem instrução em artes marciais avançadas—limitam-se ao fortalecimento físico.

Certa manhã, após cuidar das ervas espirituais do jardim, Bi Fan retornou à sua morada e deparou-se com Yu Xiaofeng, trajando um vestido branco, postura graciosa e imponente. Embora jovem, exalava maturidade e um fascínio irresistível—em especial, o busto altivo despertava devaneios.

Apesar da tenra idade, Bi Fan conhecia algo das coisas entre homens e mulheres e não pôde evitar um olhar mais demorado.

—Irmã Xiaofeng, a que devo a honra de sua visita? — saudou ele, respeitosamente.

Yu Xiaofeng percebeu a mudança em Bi Fan e, surpresa, fitou-o por alguns instantes:

—Já terminou o trabalho de hoje, Bi Fan?

—Sim, já está concluído.

—Poderia fazer-me um favor? Preciso que desça a montanha para buscar os suprimentos dos próximos dias. O velho Liu, responsável pelo transporte, adoeceu. Como o Pico das Donzelas é habitado apenas por mulheres, só me resta pedir a você.

Seu tom era natural, despido de afetação.

—Claro, será um prazer — respondeu Bi Fan prontamente.

O local para retirada de suprimentos era-lhe bem conhecido: Bai Ping. Ao redor, muitas casas abrigavam servos e trabalhadores humildes; os meninos das ervas também residiam ali.

Bi Fan sentiu vontade de rever antigos conhecidos—pensou em Zhu San, o encarregado do jardim, e nos rapazes Da Niu e Er Gou. Tinham-lhe deixado marcas indeléveis, jamais esquecidas.

Yu Xiaofeng, lançando-lhe um olhar, disse:

—Pegue algumas roupas extras para si. Você está crescendo, precisa de peças maiores.

Talvez ela o dissesse casualmente, mas o gesto aqueceu o coração de Bi Fan. Era a primeira vez que sentia o sabor do cuidado alheio.

—Obrigado, irmã Xiaofeng.

Bi Fan desceu a montanha—depois de um mês e meio no Pico das Donzelas, era sua primeira vez fora dali.

Subira com o coração aflito; descia agora, espirituoso e confiante.

—Da Niu, Er Gou, velho cão Zhu San, aguardem por mim. Pagarei com juros as humilhações que me fizeram! — pensou, os passos firmes.

Bai Ping era o limite externo da Montanha Qingyang; todos os suprimentos para a montanha eram ali armazenados. O local era sempre movimentado, gente indo e vindo para buscar provisões para os vários picos.

Chegando, Bi Fan não se apressou. Caminhou lentamente até a área do jardim de ervas.

Retornar ao lugar onde vivera mais de uma década trouxe-lhe sentimentos amargos. Era terra de suas mágoas, que preferia esquecer—mas ali também estavam pessoas que lhe importavam, e não podia evitar a visita.

Da Niu, Er Gou—o que lhe fizeram fora imperdoável. Tomou a decisão: visitaria os “velhos amigos” e anunciaria seu retorno.

Da Niu, corpulento como um boi, já era forte mesmo sem cultivar. Costumava espancar e humilhar Bi Fan, obrigando-o a cuidar das ervas para ele.

Logo, Bi Fan avistou Da Niu, que se regalava num banquete, satisfeito.

—Da Niu, estou de volta! — bradou Bi Fan.

Da Niu ergueu a cabeça, olhos bovinos arregalados, sem reconhecer Bi Fan.

—Quem é você, moleque? Não vê que o tio Da Niu está comendo? Se me irritar, mato você com um chute!

Da Niu odiava ser interrompido durante as refeições—sua fúria era instantânea.

—Da Niu, não me reconhece? — Bi Fan sorriu.

—Nosso círculo não tem nenhum Bi Fan. Veio aqui arrumar confusão, é? — resmungou Da Niu.

Antigamente, chamavam Bi Fan de “tolo”, e até seu nome real fora esquecido.

—Ah, não me reconhece? Eu sou aquele ‘tolo’ que vocês viviam a humilhar. Isso você não pode ter esquecido.

—Impossível! Como poderia ser você? Nem se parecem, além do mais... o ‘tolo’ já morreu — Da Niu balançou a cabeça.

Bi Fan prosseguiu:

—Da Niu, lembra-se de dois anos atrás, quando, para testar sua força, quebrou meu braço com um puxão? E mais...

Enumerou alguns dos episódios de abuso sofridos—momentos que jamais esqueceria.

—Você é mesmo o ‘tolo’? — Da Niu arregalou a boca, estupefato, como se visse um fantasma.